quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Vice – Crítica – Maratona Oscar 2019


Rami Malek, eu estou torcendo por você, mas acho que o Oscar não será seu esse ano. Cheguei a essa conclusão ao final de Vice, do diretor Adam McKay, que está concorrendo à principal categoria do Oscar 2019. O Christian Bale no papel do protagonista está espetacular e eu não vou ficar nenhum pouco surpresa se ele ganhar.


Vice é um filme biográfico que mostra a trajetória de Dick Cheney (Bale), vice-presidente dos Estados Unidos no governo George W. Bush (Sam Rockwell). Aí você pensa: qual a importância de um vice-presidente para se feito um filme sobre ele, afinal, o cargo é quase simbólico – ou como dizem na produção, “é ficar sentado esperando o presidente morrer”? Bom, Dick Cheney foi muito mais do que apenas simbólico.

No longa, acompanhamos Cheney desde a juventude, quando teve muitos problemas com álcool, drogas e falta de compromisso. Era mediano apenas. Até que Linney (Amy Adams), sua esposa, lhe dá um ultimato e ele cria juízo. E começa aí a trajetória que o levou até a Casa Branca e o tornou responsável pela Guerra do Iraque e muitas outras coisas mais.



Muitos se perguntam como um homem como Cheney não chegou ao cargo máximo do país mais poderoso do mundo. Será mesmo que não chegou? Para aceitar ser vice, ele fez um acordo com Bush, no qual se tornou responsável por decisões mais importantes que o próprio presidente. E é impressionante como Bush foi retratado como um mané (essa é a melhor palavra que o descreve), manipulável e, basicamente, um burro – assim como toda população americana.

Geralmente biografias são com personalidades minimamente populares. É só lembrar do ano passado, quando Churchill foi celebrado em dois filmes e lutou contra vilões na II Guerra Mundial. Bom, aqui Cheney é o vilão. Se você pesquisar um pouquinho que seja sobre ele, vai descobrir fatos pouquíssimos lisonjeiros. E segundo dize, ele é ainda pior do que o filme mostrou. O filme, cujo roteiro também é de McKay, não tenta amenizar seus atos e nem humanizar a persona. Mostra seu lado ardiloso, manipulador, sedento de poder e frio (é, galera, ele foi o responsável pela tortura ser permitida, usando apenas um outro nome menos pesado). Em uma excelente cena final, com a quebra da quarta parede (quando o personagem fala diretamente com o público), isso fica ainda mais claro.


Claro, Cheney não é uma pessoa boazinha, mas podemos dizer que Linney é farinha do mesmo saco. Naquela relação um puxa o outro e estou para ver um casal que se merece mais do que eles.

Claro que a direção e o roteiro de Mckay são imprescindíveis, mas Vice não seria nada sem um elenco coeso e entregue. Christian Bale está, como eu disse lá em cima, nada menos do que espetacular. Sua atuação, seus trejeitos, seu olhar, tudo, é muitíssimo real. Fora que a forma física também, porque ele ganhou 33 quilos para viver esse papel e fez exercícios específicos para engrossar o pescoço. Amy Adams não fica atrás, assim como Sam Rockwell. Os três atores estão concorrendo ao Oscar, não é por menos. E apesar de não ter sido nomeado à premiação, Steve Carell merece elogios pela interpretação de Donald Rumsfield, mentor de Cheney.




Vice segue o estilo de Mckay que conhecemos em sua outra produção que concorreu ao Oscar: A Grande Aposta. Ele tem uma pegada engraçada, ácida, satírica e que muitas vezes foge da realidade (como a cena em que Cheney e Linney conversam na cama com frases shakespearianas ou quando no meio do filme créditos finais sobem). No letreiro inicial, afirmam que o filme é baseado numa história real. Bom, o máximo possível, porque Cheney é furtivo e eles fizeram seu melhor trabalho de pesquisa apesar de tudo. Acho que podemos dizer que McKay é um zueiro.

Cheney e Linney ainda estão vivos e muitíssimo bem. Eu gostaria muito de saber como eles se sentiram ao assistir Vice – se é que assistiram – e se viram retratados como a personificação do mal na Terra.


Vice está concorrendo ao Oscar 2019 nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Ator (Christian Bale), Melhor Atriz Coadjuvante (Amy Adams), Melhor Ator Coadjuvante (Sam Rockwell), Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Montagem e Melhor Maquiagem e Penteado.

Recomendo.

Lista de indicados ao Oscar de Melhor Filme em 2019


Teca Machado

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Roma – Crítica – Maratona Oscar 2019


Todos os anos tento assistir a todos os filmes que concorrem na categoria Melhor Filme do Oscar. Em 2019 eu me interessei por todos, menos um: Roma. Confesso que fui relutante assistir a produção do diretor Alfonso Cuarón, disponível na Netflix (Bom, pelo menos eu não ia gastar no cinema com um filme que não estava a fim de assistir). No fim das contas, não odiei, como achei que detestaria, mas também não gostei. Ficou naquele limbo de "ok, mas não veria de novo".


O pior foi o comecinho. Quando o letreiro começou, já revirei os olhos, porque até ele é devagar. Muito devagar. E o filme foi indo lento, num ritmo que me fez indagar para onde a história estava indo. Depois de um tempo me acostumei e inclusive me interessei pela história de Cleo (Yalitiza Aparicio). 

Roma segue um ano na vida dela, uma empregada doméstica de origem indígena, que no México dos anos 1970 trabalha para uma família de classe média e tem um carinho gigante pelas crianças da casa e é bem tratada por todos, mas ainda assim é quem faz todo o trabalho pesado, junto com Adela (Nancy García García).



Apesar de ser Cleo a protagonista, vemos outra mulher que lutar para se reerguer após tristezas, que é a sra. Sofía (Marina de Tavira), patroa. Ela e Cleo passam por situações semelhantes, apesar de cada uma com a sua particularidade, e tentam fazer o melhor com o que a vida deu e de certa forma se apoiam, o que é bonito de assistir.

O movimento da câmera – às vezes até mesmo inexistente -, a falta de cores, o jogo de sombra e luz, a importância dos filmes dentro do filme e a imobilidade dão um ar de realmente ser uma produção dos anos 1970. Uma cena em particular, dentro do hospital, com todos esses elementos, gera uma sensação de impotência tão grande que sofremos junto com a personagem.


No fim, fiquei com aquela cara de interrogação, de "ué, acabou?". Entendi o filme, mas sabia que ele tinha muito mais camadas psicológicas do que eu peguei de primeira, então pesquisei sobre a produção e passei inclusive a gostar mais dela e a entender melhor o propósito da obra.

Roma é quase autobiográfico. Cuarón escreveu pensando na sua infância e em Libo, a quem ele dedica o filme. Ela trabalhou com a sua família desde que ele tinha 9 meses e foi a sua versão real de Cleo. A casa em que o diretor cresceu ficava no bairro Roma (e eu aqui pensando que era na cidade italiana!), e o filme inclusive foi filmado numa construção que foi toda alterada para parecer a que ele morou. E essas são apenas algumas das particularidades da obra.


Roma é lento, é quase a vida real mesmo, todo em preto e branco e cheio de simbolismos. Definitivamente não é um filme para qualquer pessoa. Não achei que tem todo o esplendor que está sendo alardeado, mas também não é ruim como achei que seria. É apenas muito diferente do que estamos acostumados, tanto no ritmo quanto na temática. Acho que no fim das contas sou uma pessoa muito mais "filme pipoca" mesmo.

Roma é o primeiro filme da Netflix que chegou a maior premiação mundial do cinema. Isso só mostra a força do serviço de streaming.


Roma está concorrendo a: Melhor Filme, Melhor Atriz (Yalitiza Aparicio), Melhor Atriz Coadjuvante (Marina de Tavira), Melhor Diretor, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Mixagem de Som, Melhor Direção de Arte e Melhor Edição de Som.

Recomendo, mas não para todo mundo.

Lista de indicados ao Oscar de Melhor Filme em 2019
Teca Machado

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Green Book: O Guia – Crítica – Maratona Oscar 2019


Eu imaginava que Green Book: O Guia, do diretor Peter Farelly, seria bom. Mas a sensação que fiquei ao final do filme foi a de que ele foi muito mais do que isso. Incrível descreve melhor. Me deixou com o coração quentinho. É aquela produção que eu recomendo de olhos fechados.


Com Viggo Mortenssen (nosso eterno Aragorn, que em nada lembra o personagem, agora envelhecido e com uma barriga imensa) e Mahershala Ali, dois atores sensacionais, Green Book é uma história real. Nos anos 1960, período altamente racista nos EUA (E por acaso deixou de ser?), Doc Shirley (Ali), um negro gênio da música, famoso no meio erudita, vai fazer um tour pelo país e precisa de um motorista que o leve aos concertos. Contrata Tony Vallelonga (Mortenssen), um descendente de italianos brutamontes que trabalhava em boates de NY. Ao passar principalmente nos estados do Sul, ambos não podem ficar nos mesmos hotéis, já que “pessoas de cor” não tinham permissão de se misturar com os brancos. Por isso levam na viagem o Green Book, um guia para que negros pudessem saber onde eram bem-vindos. 

Apesar do tom engraçado do filme, trazido na maior parte das vezes por Tony, seu apetite infinito e tiradas sem noção, Green Book deixa um nó na garganta em vários momentos (a cena da discussão na chuva dói na alma). Doc é um gênio, incrível, educado e um lorde, mas é tratado de forma terrível por causa da sua raça.



O mais interessante do filme é a interação entre Doc e Tony, interpretada de maneira sublime por Mortenssen e Ali. A química é muito forte entre eles. Enquanto o músico é erudito, fino e inteligente ao extremo, Tony é um falastrão, sem modos, mas carismático. Difícil não sorrir com ele. Vemos a evolução de ambos. Tony, antes um racista velado, se torna o maior defensor de Doc. E Doc, tão rígido e sério, passa a se divertir com Tony. E o psicológico dos personagens é bem trabalhado, principalmente de Doc. Com o passar do tempo ele começa a se abrir com Tony e temos um vislumbre de quem é o homem por trás do talento ao piano, o que o moldou.

Num ano que o tema racismo está sendo muito falado no Oscar e com muitos atores, diretores e histórias negras sendo celebradas, Green Book se diferencia dos outros concorrentes (Pantera Negra, Infiltrado na Klan, Se a Rua Beale Falasse) por ser dirigido por um homem branco e contado pela perspectiva de um branco, o que gerou críticas antes do filme ser lançado e amenizadas depois. E quando descobri que Peter Farelly era o diretor, fiquei muito surpresa, porque ele é conhecido por filmes pastelões e nada sérios, como Débi e Lóide, Quem Vai Ficar Com Mary?, O Amor é Cego e Eu, Eu Mesmo e Irene. Quem diria que faria um filme tão delicado e sentimental quanto esse?


Apesar de ser baseado numa história real, parentes de Doc, ainda vivos, afirmam que a amizade entre a dupla nunca existiu e que o filme foi uma “cascata de mentiras”. Ao mesmo tempo, a família de Tony afirma o contrário, usando inclusive trechos de entrevistas do músico que confirmam isso. Seu filho, Nick Vallelonga, é um dos roteiristas.

Sendo verdade ou não, o que importa é que Green Book: O Guia é um excelente filme, um tapa na cara da plateia e divertido ao mesmo tempo que emociona. 


Não deixe de ouvir a trilha sonora. Está linda.

A produção está concorrendo ao Oscar 2019 por Melhor Filme, Melhor Ator (Mortenssen), Melhor Ator Coadjuvante (Ali) e Melhor Roteiro Original.

Lista de indicados ao Oscar de Melhor Filme em 2019

A Favorita
Roma
Vice
Green Book - O Guia (Assistido)

Teca Machado

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Mais Lindo Que a Lua - Resenha


Que a Julia Quinn é a musa literária de muita gente, todos nós sabemos. Difícil é encontrar alguém que não se apaixonou pelos Bridgertons (eu, por exemplo, ainda não consigo saber qual dos irmãos e seus cônjuges eu gosto mais). Mas Mais Lindo Que a Lua, primeiro volume da duologia Irmãs Lyndon, publicado pela Editora Arqueiro, não teve uma aceitação tão boa assim e foi criticado por muita gente.

Foto @casosacasoselivros

Em Mais Lindo Que a Lua, Robert, o conde de Macclesfield, e Victoria Lyndon, a filha do vigário, se apaixonam perdidamente à primeira vista. Depois de semanas intensas e incríveis, que os marcou profundamente, fazem planos para fugir e se casarem. Mas os pais de ambos, contra a união, dão um jeito de separar o casal. Sete anos depois, por acaso Robert e Victoria se reencontram. Todo aquele sentimento que nutriam ainda está ali, mas também as mágoas e ressentimentos que esses anos tiveram sobre eles.

A primeira metade da história é doce, sensível e te deixa com um sorriso nos lábios. Ver Victoria e Robert se apaixonarem é lindo, assim como o reencontro deles e a reconexão. Mas então chegamos na página cento e pouco e ao olhar para o livro vemos que ainda tem metade da história, quando tudo parecia que já se encaminhava para o final. E é aí que o negócio desanda, o que deixou muita gente por aí irritada.

Julia Quinn
Não vou dar spoilers do que acontece, claro, mas a reviravolta encontrada por Julia Quinn não foi das melhores. A impressão que tive foi a de que o livro precisava ficar mais longo e ter mais ou menos o mesmo tamanho de todos os outros que já escreveu, então colocou um plot twist que não foi bacana e que fez Robert cair muito no conceito dos leitores, principalmente das mulheres.

Amor à primeira vista é um dos assuntos mais explorados em literatura, cinema e séries, mas ao tentar inovar e dar uma nova cara ao tema, Julia Quinn perdeu um pouco a mão. E é triste falar isso, porque eu amo a autora, mas é verdade.

Mas um ponto interessante desse livro é que antes de a história começar, a autora nos diz que não acredita em amor à primeira vista, o que parece um pouco ilógico vindo da mulher que escreve romances o dia todo. Mas decidiu dar uma chance ao tema e realmente acreditou, desde a primeira página, que Robert e Victoria realmente se apaixonaram instantaneamente. E é fofo ela falar assim, como se eles realmente fossem pessoas reais, que ela conheceu.

Mais Lindo Que a Lua não é ruim, principalmente se levarmos em conta a primeira metade do livro, que é recheada da magia Quinn da qual estamos tão acostumados. É só que não é a melhor obra dela, então não vá com muita sede ao pote. Pesquisando sobre ele, descobri que foi escrito em 1997, 13 anos antes da autora iniciar a série dos Bridgertons, então percebemos que houve uma melhora surpreendente na sua maneira de contar histórias. Só que tudo o que amamos na escritora – sua escrita ágil, sua maneira de nos fazer amar e compreender os personagens, o humor sempre presente, sem tirar o peso dramático – está ali, então vale a pena a leitura.

O segundo volume, já publicado no Brasil pela Editora Arqueiro, é Mais Forte Que o Sol, que tem como protagonista Ellie, a irmã de Victoria que já conhecemos e amamos em Mais Lindo Que a Lua.

Recomendo.

Teca Machado


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Sex Education - Crítica


Séries adolescentes é o que mais vemos por aí. E um tema é bem constante nelas: Relacionamentos amorosos e sexo. Pode ser de forma mais humorística ou séria, mas o assunto nunca fica longe dos roteiros. Mas talvez nunca produção tenha tratado não só de sexo, mas de sexualidade, com tanta honestidade e ao mesmo tempo sensibilidade quanto Sex Education, da Netflix.


O show, com apenas oito episódios na primeira temporada e já renovado para a segunda, fala abertamente sobre tantos assuntos que envolvem sexualidade – a maioria inclusive tabus - que é até difícil citar todos.

O título da série remete às infames aulas de educação sexual, pouco comuns no Brasil, que as escolas americanas e inglesas geralmente têm. Sempre são mostradas com um professor constrangido tentando ensinar principalmente a anatomia do negócio enquanto os alunos não levam a sério e dão risadinhas. Mas Sex Education vai além disso. Nela conhecemos Otis (Asa Butterfield), um garoto virgem de 16 anos que entende muito mais se sexualidade do que qualquer outro adolescente. Por ser filho de terapeutas sexuais, cresceu aprendendo sobre o assunto, mesmo que indiretamente. Então, Maeve (Emma Mackey) tem a ideia de transformar Otis em um terapeuta sexual da escola e cobrar por isso.



Em meio a atendimentos dos colegas, que possuem os mais diversos problemas em relação ao assunto, Otis precisa lidar com suas próprias dificuldades, já que não consegue nem ao menor se tocar sem ter um ataque de pânico. E parte desses traumas vêm da sua mãe Jean (Gillian Anderson), que apesar de sempre se manter aberta ao filho e aos seus questionamentos, não percebe que o analisa a todo instante e invade a sua privacidade. A relação dos dois traz uma dinâmica muito interessante ao enredo.

O mais interessante de Sex Education é a parte psicológica dos personagens, seja dos protagonistas, seja dos que aparecem poucas vezes. Mesmo quando os problemas sexuais parecem de cunho fisiológico, Otis vai até a raiz da questão e descobre motivações muito mais profundas, o que o torna um ótimo terapeuta sem nem ao menos perceber. 



Asa Butterfield e Emma Mackey estão ótimos. Asa, que sempre fez papeis um pouco mais sérios (ele é o Hugo Cabret ❤), mostra ao espectador um outro lado seu nessa dramédia, sem medo e sem vergonha mesmo nas cenas mais constrangedoras (e acredite: há várias). Emma faz um papel que tinha tudo para ser estereotipado, mas o faz com gentiliza à personagem. Gillian Anderson também está muito bem, como a terapeuta descolada e muitas vezes avoada que tem também seus problemas. Mas é impossível falar de Sex Education sem dizer que o melhor personagem de todos é Eric, o melhor amigo de Otis, interpretado maravilhosamente por Ncuti Gatwa. Sendo um dos únicos gays da escola e membro de uma família religiosa e conservadora, Eric não tem medo de mostrar quem é. E o mais interessante é que onde mais encontra consolo e compreensão é dentro da igreja e de casa, onde sempre acreditou que não teria. Estou encantada por ele, seu sorriso gigantesco e quero ser sua melhor amiga para todo o sempre.


Sex Education pode assustar algumas pessoas. Apesar de ser uma série adolescente, tem bastante nudez e cenas de sexo, quase sempre no começo do episódio, com uma pegada quase catastrófica e cômica e que irá levar ao problema que Otis vai resolver. Mas essas cenas não são eróticas, pelo contrário. São quase descontraídas. E a Netflix contratou um coordenador de intimidade (juro que essa profissão existe) para que os atores não se sentissem constrangidos e para evitar problemas de abusos sexuais no set.

Mais do que falar sobre sexo, a série mostra a importância de se conhecer, de não simplesmente ceder às pressões e outras pessoas e de saber quem você é e se sentir completo, antes de colocar outra pessoa na jogada. 


Sex Education é divertida, leve e relevante. Aguardo ansiosamente a segunda temporada.

Recomendo.

Teca Machado

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Infiltrado na Klan – Crítica – Maratona Oscar 2019


Chegou aquela época do ano que eu amo, vocês amam e nós amamos todos juntos: O Oscar!

E como já é tradição aqui do blog, vai começar a série de posts sobre filmes que concorrem na principal categoria da premiação. Desde o ano passado já assisti e fiz a crítica de algumas das produções para vocês, mas agora começou oficialmente a maratona que vai até 24 de fevereiro, data da 91a edição do prêmio.

A crítica de hoje é de Infiltrado na Klan, do diretor Spike Lee.


Nos anos 1970, um policial negro americano conseguiu se infiltrar na Ku Klux Klan, junto com outro policial judeu. Detalhe: a KKK odeia ambos. Se não fosse uma história real, seria um enredo absurdo. Infiltrado na Klan, é baseado no livro autobiográfico de mesmo nome de Ron Stallworth. 

Numa era pós-Martin Luther King, quando os negros americanos estavam lutando pelos seus direitos e liberdade, Ron (interpretado por John David Washington, filho de Denzel Washington) se tornou o primeiro policial negro da polícia de Colorado Springs. Muitas vezes lutando contra o preconceito dos próprios colegas e da comunidade negra, que tinha aversão (e ainda tem) pela corporação, Ron se tornou um agente infiltrado. Meio por acaso, começa contato telefônico com a Ku Klux Klan (chamada de Organização pelos membros), mas por óbvias razões não pode se encontrar com eles ao vivo. Entra aí Plip (Adam Driver), colega policial que finge ser Ron nas reuniões enquanto o verdadeiro conversa com eles ao telefone.



E se você só sabe por cima o que é o KKK, segue uma pequena descrição para te contextualizar melhor sobre a importância desse filme: “Ku Klux Klan, também conhecida como KKK ou simplesmente Klan, é uma organização que defende correntes reacionárias e extremistas, tais como a supremacia branca, o nacionalismo branco, a anti-imigração, o nordicismo,  anticatolicismo e o antissemitismo, historicamente expressos através do terrorismo voltado a grupos ou indivíduos aos quais eles se opõem”.

Apesar de ser uma história dos anos 1970, Spike Lee nas dá um filme muito atual. Tanto que ele disse em entrevistas que só faria o filme se pudesse inserir críticas e reflexões dos nossos dias, o que ele faz com maestria, principalmente nas cenas finais e reais de acontecimentos de 2017. É impossível não pensar no racismo cotidiano, no discurso de ódio, no extremismo e até mesmo nas fake news (um dos integrantes da Klan diz que o Holocausto não aconteceu, foi invenção da mídia). Em certo momento David Duke (Topher Grace), presidente nacional do KKK diz que deseja tornar a América grande outra vez. Te lembra alguém?



A jornada de Ron é clara desde o início. É uma cruzada contra o racismo. Mas a de Plip vai se desenhando. Ele é judeu, apesar de nunca ter vivido como um. E nunca se incomodou com o fato, porque é um homem branco que não sofre preconceito. Mas quando está na KKK, passa a enxergar o ódio do branco cristão de extrema direita. E a missão se torna sua tanto quanto é de Ron. Adam Driver (nosso amado Kylo Ren) entrega um ótimo Flip, mas acho exagero estar concorrendo ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. John David  Washington está excelente como protagonista, se jogando de cabeça naquele universo racista sem se deixar abalar psicologicamente. Já Topher Grace viu meses e milhões de entrevistas de David Duke para interpretá-lo, mas se sentiu extremamente deprimido ao fim das filmagens, devido a tantas mensagens de ódio disfarçadas em carisma que o líder da Klan propagou – e propaga até hoje.

Spike Lee mistura um certo tipo de humor mordaz e sarcástico que deixa Infiltrado na Klan mais leve, mas não menos sério. Esse é um filme necessário, pesado em vários momentos e que te faz refletir como o ser humano consegue ser ruim, cego e insano.


Infiltrado da Klan concorre aos Oscars de: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Adam Driver), Melhor Montagem, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora.

Recomendo muito.


Lista de indicados ao Oscar de Melhor Filme em 2019

A Favorita
Roma
Vice
Green Book - O Guia
Infiltrado na Klan (Assistido)

Teca Machado

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O Homem de Areia - Resenha


Senta que lá vem resenha de um livro sensacional!

Se você gosta de thrillers policiais, essa história é para você. E se você não gosta, essa história é para você também, para começar a amar muito o gênero. E pode vir tranquilo que aqui no blog não rolam spoilers.

Foto @casosacasoselivros

Estou falando de O Homem de Areia, de Lars Kepler (pseudônimo do casal sueco Alexander e Alexandra Ahndoril), da Editora Alfaguara (Companhia das Letras). Quando abri o pacote enviado por eles, na hora que vi a capa e a sinopse do livro já fiquei ansiosa pela leitura. Sabia que seria ótima, mas não imaginei que seria tanto. Foi a ponto de eu descer na minha estação no metrô, sentar num banquinho e ficar lá mais 20 minutos porque faltavam poucas páginas para terminar e eu precisava saber o final.

Um dos maiores diferenciais de O Homem de Areia é que nesse caso o livro já começa com o serial killer Jurek Walter preso. Desde o começo sabemos que ele é o responsável pelos sequestros e mortes de um caso pavoroso que ficou a cargo do detetive Joona Linna. Mas então um homem desnorteado aparece numa ponte, com hipotermia e machucado. Ele é Mikael Kohler-Frost, uma das vítimas de Jurek que sumiu há 13 anos e foi dado como morto há 7. Enquanto investiga onde Mikael esteve todo esse tempo, Jonna e a policial Saga Bauer se envolvem profundamente nesse caso aparentemente sem sentido, mas que ganha contornos cada vez mais sombrios.

O enredo de O Homem de Areia é criativo e muito bem escrito. Eu me pegava lendo páginas e mais páginas porque ficava extremamente envolvida com a história. Thriller policial é um gênero que leio muito, então várias vezes nem fico surpresa com as reviravoltas. Mas não foi esse caso. Por mais que alguns pontos eu tenha desconfiado, a maioria foi surpreendente e me deixou presa, me fazendo perguntar quase seria o final e a motivação de tudo aquilo.

Lars Kepler, o casal Alexander e Alexandra
Jonna Linna é um personagem recorrente de Lars Kepler. Como O Homem de Areia é o quarto livro da coleção do detetive, imaginei que talvez não fosse entender tão bem a história pessoal dele, mas como é comum no gênero, as obras são independentes e os autores nos contextualizam sobre o personagem. 

Com capítulos curtos (curtos mesmo, consigo contar nos dedos de uma mão quantos são os com mais de duas páginas), a leitura de O Homem de Areia é ágil e passa voando, mesmo com as suas 450 páginas. Como temos muitos pontos de vista em terceira pessoa, a história fica muito completa e conseguimos ver o todo. Alguns fatos podem parecer que estão lá sem muito propósito, mas Kepler não deixa nada ao acaso. Mesmo que algo pareça irrelevante, serve para construir o psicológico dos personagens.

E por falar neles, são muito bem construídos. Jonna, é claro, tem destaque e é ótimo ler sobre ele. Mas o enredo de Saga rouba a cena. É muitíssimo interessante e ela tem camadas que vão sendo descascadas tal qual uma cebola. Se tem uma personagem feminina forte e badass nessa vida ela se chama Saga Bauer. Jurek Walter é também digno de nota e um mistério a maior parte do tempo. Infelizmente não há capítulos com seu ponto de vista, mas isso é proposital, senão muito do livro seria revelado antes da hora.

Os livros da série de Joona Linna são:

O Hipnotista (2010)
O Pesadelo (2011)
A Vidente (2013)
O Homem da Areia (2014)
Stalker - O Regresso do Hipnotista (2014)
Kaninjägaren (2016) – Sem título em português.

Infelizmente a série não está completa no Brasil. A Intrínseca publicou o primeiro e o segundo (que dizem ser ótimos também!), não consegui achar nada sobre o terceiro (a não ser em editoras de Portugal) e agora a Alfaguara lançou o quarto. Sobre quinto e o sexto não tive nenhuma notícia.

No final de O Homem de Areia fiquei com aquela cara de “uau, que livro” e a sensação que só faz crescer o meu amor pela literatura. É um dos melhores do gênero que li nos últimos tempos. E se você ficou interessado pode ler um trecho do livro aqui: O homem de areia - Trecho gratuito

Recomendo muito.


Teca Machado