quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Até Você Ser Minha - Resenha


Imagine a situação: Oito meses de gravidez, marido viajando, babá contratada e grávidas sendo assassinadas pela cidade. É de botar medo em qualquer um, certo? Adicione a isso o fato de que a babá é aparentemente perfeita, mas esconde muitos segredos, inclusive uma vontade louca de ser mãe. Essa é a premissa de Até Você Ser Minha, de Samantha Hayes, publicado no Brasil pela Editora Intrínseca.

Foto @casosacasoselivros

Pode ler a resenha tranquilamente: Aqui não tem spoiler.

Apesar do título aparentemente fofo e com cara de romance, Até Você Ser Minha é um thriller. Sempre fui fã de um bom suspense, mas leio tanto o gênero que não são todas as vezes que o autor consegue me surpreender ou mesmo me fazer devorar a leitura. Mas Samantha Hayes fez isso com maestria. Quando entrei nas 50 páginas finais falei inocentemente: “vou ler só mais um capítulo e dormir”. Doce ilusão! A história entrou num ritmo tão alucinado que precisei ler tudo até o final. Fui dormir quase às 3h da manhã, mas valeu muito a pena.

É um livro interessante, com uma história diferente e com uma tensão que paira ao longo das 336 páginas, principalmente no terço final. Como é comum no gênero o começo pode ser um pouco maçante e o meio enrolado, cheio de pistas falsas – misturadas com as verdadeiras -, mas nada disso é ruim ou te faz querer abandonar a leitura (e se fizer, pense que no final tudo vai valer a pena!).

A história foca em três mulheres: Claudia, a assistente social grávida, Zoe, a babá, e Lorraine, a investigadora responsável pelos casos das grávidas assassinadas, e todas são narradoras. Os capítulos se alternam entre as personagens. Tanto o enredo de Claudia quanto o de Zoe são envolventes. O leitor quer acompanhar Claudia para saber se ela vai ficar bem e quer desvendar os mistérios que cercam Zoe. O mais desinteressante é o de Lorraine. Fala-se muito da sua vida pessoal e dos seus dramas familiares, o que parece um pouco sem propósito com tudo o que acontece ao redor. Isso foi algo que me incomodou um pouco na leitura. Mas então descobri que Até Você Ser Minha é o primeiro volume da série DCI Lorraine Fisher, que acompanha a policial em outros casos, por isso foram tantas páginas sobre a personagem em assuntos não relacionados à investigação. Os outros livros são What You Left Behind e You Belong To Me, que não foram lançados no Brasil (pelo menos não achei nada sobre o assunto).

Até Você Ser Minha é muito bem construído e a escrita de Samantha Hayes é ótima. Os personagens são complexos e a autora cria uma teia de desconfiança e suspense que permeia toda a história. É muito difícil não desconfiar de tudo e de todos. E quando chega o desfecho, todas as pontas são amarradas e a gente fica com essa cara:


Apesar de ler muitos livros de suspense policial, esse foi o primeiro com crimes contra grávidas. E isso me deixou um tanto surpresa, porque não é algo que seja corriqueiro no gênero. Foi muito interessante.

Até Você Ser Minha foi uma das leituras mais surpreendentes do ano.


Recomendo muito.

Teca Machado

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Ford vs. Ferrari - Crítica


A velocidade é algo que move o ser humano. Sempre moveu. E as corridas automobilísticas começaram assim que os carros foram inventados, mas tomaram fôlego no pós-Segunda Guerra Mundial. E é 20 anos após esse período, em meados dos anos 1960, que passa o filme Ford vs. Ferrari, do diretor James Mangold (de Logan e Johnny & June).


Com Matt Damon e Christian Bale nos papeis principais, o filme conta a história real de quando a Ford decidiu entrar no ramo do automobilismo e tentou uma parceria com a Ferrari. Rechaçada por Enzo Ferrari, a montadora contratou Carroll Shelby (Damon), antigo piloto que se tornou designer de carros esportivos, para criar um automóvel que fosse capaz de vencer a Le Mans, corrida na França que dura 24 horas. Juntamente com Ken Miles (Bale), um piloto fora do comum, ele tenta colocar em prática essa construção que parece impossível.

Bale e Damon são excelentes em todos os papeis que fazem e aqui não seria diferente. Bale está se divertindo muito como Miles, com sua boca suja, temperamento difícil e amor absurdo pelo que faz. Já Damon é a personificação da lealdade, confiabilidade e trabalho em equipe. A química entre os dois é gigante e mostra o lado mais pessoal e humano das grandes corporações. É muito crível que eles são amigos de verdade, até mesmo quando estão se batendo (na briga mais tosca e engraçada que vi nos últimos tempos). Como preparação para o personagem, Bale teve aulas de direção de corrida, para ficar tudo o mais real possível. E o esforço valeu a pena, porque o resultado é fantástico. Tanto que o instrutor de Bale e coordenador de dublês disse que ele é o melhor e mais esforçado ator com que já trabalhou.



Mais do que focar apenas na criação do carro perfeito para a corrida, Ford vs. Ferrari mostra como o corporativismo interfere nas questões de criatividade, com Shelby tendo que lidar a todo instante com o vice-presidente da Ford e diretor da divisão de automobilismo Leo Beebe (Josh Lucas), claramente um “vilão” na produção. Enquanto Shelby e Miles têm a paixão e a visão, a Ford tem os olhos no dinheiro.

Essa é uma história muito bem contada. O roteiro Jez Butterworth é bem amarrado e com ótimo ritmo. Nem tão acelerado – apesar de estarmos falando de um filme de corrida – e nem lento. Está na medida certa, mostrando os dramas familiares de Miles e o seu psicológico durante as corridas, os problemas físicos de Shelby e seu bom coração, a relação que tenta ser equilibrada entre o corporativismo e a emoção e os percalços na construção da máquina perfeita num pequeno período de tempo. Apesar do clima pesado em alguns momentos, o filme tem um quê de engraçado, como em Perdido em Marte.



O visual de Ford vs. Ferrari é especial. Sem CGI aparente e usado o tempo inteiro, sua fotografia é muito crua e real. Os closes de Bale dentro do carro a 350 km/hora e o rosto sempre suado e com graxa, o choro descontrolado de Henry Ford II (Tracy Letts) ao experimentar a velocidade, as cores e composição da oficina de Shelby, os carros durantes as corridas e suas ultrapassagens, tudo isso cria uma identidade hipnotizante durante o longa. Eu fiquei apavorada e agoniada durante várias cenas de corrida, pensando “ok, agora eles vão morrer, não tem como controlar um carro nessa velocidade”. Os nervos ficam a flor da pele, não tem jeito. Tudo é muito bem feito e coreografado. 

E ainda tem a trilha sonora e a mixagem de som repleta de roncos de motor, barulhos de pneus ruído do vento e músicas e narrações de rádio.



Mesmo eu que não entendo nada de corridas, de carros, de rotação por minuto e regras do automobilismo, fiquei imersa em Ford vs. Ferrari. Estão apostando em algumas indicações ao Oscar 2020, principalmente em categorias técnicas, e eu espero muito que ganhe várias nomeações e prêmios.

Recomendo muito.

Teca Machado