quarta-feira, 27 de maio de 2020

Amadeus - Crítica


Minha infância e adolescência foi recheada de filmes. Meu pai, desde que eu comecei a me interessar pelo assunto, me mostrou produções clássicas e comerciais, muitas das quais se tornaram até mesmo minhas preferidas (Indiana Jones, De Volta Para o Futuro, Cantando na Chuva, Quanto Mais Quente Melhor e outras). Uma das minhas lembranças antigas é de músicas de Mozart tocando na maior altura lá em casa enquanto cenas do filme Amadeus passavam. E logo no início da quarentena, eu e o meu marido escolhemos vários clássicos e ganhadores de Oscar para assistir. Amadeus foi o primeiro deles. E se você nunca assistiu, deveria investir 2h40 da sua vida nessa obra de arte.


O filme de 1984, do diretor Milos Forman, e baseado na peça de mesmo nome de Peter Schaffer, conta a história do austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (Tom Dulce), um dos nomes mais conhecidos do mundo até hoje quando se fala sobre música erudita. Mas o mais interessante é que apesar de ser sobre ele, todo enredo é contado pelo ponto de vista do compositor italiano Antonio Salieri (F. Murray Abraham), tido como rival musical de Mozart. Apesar de disciplinado, extremamente esforçado e com certo talento para a música, Salieri nunca chegou aos pés da genialidade fácil e excêntrica de Mozart, o que o consumiu com uma inveja profunda por décadas, até mesmo o levando a cometer atos contra o outro compositor.

Apesar de extremamente interessante e inspirado em muitos fatos reais, não podemos dizer que Amadeus é uma biografia. O roteiro mudou – e muito! – a história tanto de Salieri quanto de Mozart. Sendo que o maior dos “detalhes” alterados é que os músicos não eram nem ao menos rivais, inclusive eles trabalharam juntos. Salieri, pelos dados históricos, não era solteiro, triste e amargo como aqui, ao passo que Mozart realmente tinha a personalidade expansiva, mimada, infantil, extravagante e totalmente indisciplinada para o trabalho, como retratado no filme.



Mas essa fuga da realidade em nada estraga a experiência que é assistir Amadeus. São muitos os aspectos positivos – tanto que o filme ganhou 8 Oscars e foi indicado para mais 3 -, mas talvez as atuações sejam o ponto mais alto da produção. F. Murray Abraham, como Salieri, pode ser descrito como estupendo. Sua atuação, tanto nos dias de juventude do personagem quanto na velhice, quando se encontra num manicômio, é brilhante. Ele é um personagem difícil de gostar e sentirmos compaixão, mas sua dor, que apesar de cheia de inveja vem do fundo da alma, quase nos toca. Seu trabalho foi tão bom que ele recebeu o Oscar de Melhor Ator naquele ano. E Tom Dulce não fica atrás. Seu Mozart é estridente, excêntrico, louco, inconsequente e com a risada mais sinistra que você pode encontrar (relatos dizem que o músico realmente ria de forma bizarra). E, principalmente no terço final do filme, o personagem encontra uma decadência e uma melancolia que chegam a partir o coração, porque a criança prodígio se tornou um homem perdido, ainda que genial. O ator também recebeu indicação ao Oscar como Melhor Ator, mas o prêmio ficou com seu colega de elenco.

Outros pontos muito impactantes de Amadeus são a fotografia e todo o design de produção. Todo filmado apenas com luzes naturais e iluminação de velas, somos realmente transportados para Viena do século XVIII. Uma palavra para descrever é impecável. E o figurino e a maquiagem também são estupendos. O filme inclusive ganhou o Oscar nas categorias figurino, maquiagem e penteado, direção de arte e foi indicado como Melhor Fotografia também.




E é impossível falar de um dos maiores compositores da História sem falar da trilha sonora de Amadeus. Recomendo colocar a TV e as caixas de som na maior altura, principalmente nas sequências em que suas óperas são encenadas. É espetacular. E o bom é que apesar de ser um filme sobre música, ele não é um musical e coloca canções em qualquer situação. O roteiro encaixa as composições apenas nos momentos em que fazem sentido para o enredo.

Amadeus é um clássico que vale a pena se revisitado. Além dos Oscars já citados no corpo desse texto, a produção ainda ganhou Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado.

Recomendo muito.

Teca Machado


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