sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Interferências - Resenha


Poder ler a mente das pessoas parece que resolveria vários dos nossos problemas. Mas como Connie Willis nos mostra no livro Interferências, que recebi da Suma Editora (Companhia das Letras), conhecer a mente dos outros talvez não seja uma ideia tão boa assim.

Foto @casosacasoselivros.com

Em Interferências estamos num futuro não muito distante, quando as pessoas conectadas emocionalmente podem se ligar ainda mais por meio de um procedimento médico chamado EED. Essa cirurgia abre as vias neurais do casal permitindo que um envie sentimentos e emoções para o outro, para que possam realmente sentir o amor entre si. Briddey é pega de surpresa quando seu namorado há apenas seis meses Trent sugerem que façam um EED, mas aceita, afinal, isso os tornará ainda mais próximos. Ambos trabalham numa empresa de telecomunicações onde é difícil guardar segredos, por isso todos ficam sabendo o que eles pretendem fazer, inclusive C.B., o recluso gênio da tecnologia que tenta a todo custo impedir que Briddey se submeta a isso, assim como a sua família. Quando finalmente realiza o procedimento, algo dá errado e ela se conecta a outra pessoa.

Interferências é uma mistura de romance com ficção científica, o que pelo que eu pude pesquisar é um gênero do qual Connie Willis gosta bastante. O livro até mesmo tem uma pegada um tanto Black Mirror, porque há uma crítica social presente, mesmo que ainda leve, sobre a forma incessante como nos comunicamos por meio de mensagens, textos, ligações e como sempre precisamos estar disponíveis para os outros, além da falta de privacidade. 

Connie Willis
Gostei do livro, apesar de ter algumas ressalvas. A história é interessante e com uma premissa diferente. Imagine ter acesso aos sentimentos da pessoa que você ama? Isso pode ser tanto bom quanto ruim. Briddey, mesmo com uma passividade quase debilitante em vários momentos, é uma personagem a se gostar, assim como de C.B., um cara que tem o coração do tamanho do mundo e ajuda sempre que necessário. Uma boa palavra para descrevê-lo é encantador.

Mas o meu amor pelos personagens termina aí, porque de resto é só o ranço. Trent é um babaca de marca maior que desde o começo não me convenceu e a família da protagonista é simplesmente insuportável. É uma relação tóxica, abusiva. Aparecem de surpresa sua casa, seu trabalho, seus jantares, tudo (na verdade invadem mesmo). Se intrometem em todos os aspectos da vida de Briddey e não lhe dão um momento de paz. É quase ridícula a maneira como sua irmã Mary Clare trata a filha com cuidado excessivo, assim como Kathleen tem encontros com homens por todos os aplicativos de namoros disponíveis e parece uma criança pedindo conselhos. E mesmo quando Briddey diz que não pode falar no momento, continuam insistindo, sem dar nenhuma espécie de espaço para a garota.

Interferências é narrado em terceira pessoa, sempre do ponto de vista de Briddey, e é recheado de diálogos, o que é sempre bom, mas o ritmo me incomodou um pouco. Às vezes você fica 20, 30 páginas no mesmo assunto e tem a impressão de que não sai do lugar. Há trechos supérfluos que poderiam ser facilmente retirados. Esse é um livro de mais de 450 páginas que em certos momentos fica estagnado, tanto que demorei um bom tempo para finalizar a leitura.


Mas toda crítica social é importante e válida, sobre como a comunicação exagerada e em tempo real tem o seu lado ruim. Sei que a maneira que Connie Willis retratou esse assunto foi um tanto exagerada, para criar mesmo uma hipérbole, por isso tudo parece ainda “mais”, ainda “maior”. Em certos momentos chega até mesmo a ser desesperador o tanto que Briddey perde sua privacidade, quando nem mesmos seus pensamentos e sentimentos são um lugar seguro para ser si própria. Por isso é impossível não se indagar se estamos seguindo nesse caminho e o qual ruim isso vai ser para a sociedade.

Há tiradas divertidas, referências ao mundo pop (Beyonce fez um EED!) e diálogos ágeis e inteligentes. Apesar de poder se considerado uma comédia romântica no melhor estilo cara nerd desengonçado fica com a garota linda que é muita areia para o seu caminhão, o foco não é tanto o amor, e sim tudo pelo que Briddey passa. 

Recomendo.

Teca Machado




6 comentários:

  1. Oiii Teca

    Eu não gosot muito de livros narrados na terceira pessoa, sinto tanta dificuldade em me afeiçoar à trama e personagens. E além disso, apesar da premissa interessante não é um livro que me chama a atenção até porque acho que tb pegaria ranço dos personagens por conta dessa relação nada saudável.

    Beijos

    www.derepentenoultimolivro.com

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  2. Oi Teca!! Eu já sabia que a autora escrevia sobre ficção, mas não sabia dessa pegada romântica, uma mistura bem curiosa pra dizer a verdade. A trama parece ser muito boa e mesmo com o personagem ranço quero conferir rsrsrsrrs

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  3. Oi, Teca
    Eu gostei muito dessa capa e eu fui ler a sinopse antes mas não tinha gostado porque eu achei que fosse bem um triângulo amoroso. Ai fiquei relutante mesmo sabendo depois que não era o caso, o problema é essas coisas que tu não gostou. Isso me irrita bastante e eu fico com um pé atrás, pra não ter que passar por toda a raiva. Eu poderia ler, mas não seria exatamente agora.
    Beijos
    http://www.suddenlythings.com

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  4. Oi Teca,
    Não conhecia a obra... Não sei... Algo não me agradaria logo de primeira, sabe? Se não fosse uma recomendação, talvez eu não desse a devida atenção ao livro.
    E confesso que entendo esse 'excesso', esse 'exagero', afinal, é para incomodar mesmo né?
    Uma ótima dica, Teca!
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

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  5. Oi, Teca

    Deus me livre e guarde de um procedimento assim, cruz credo. Tiraria toda a beleza do sentimento, que horror! Hahahaha
    Eu não sou chegada nessa pegada mais futurista, então acho que não leria, até porque não gostei do ponto de partida.

    Beijos
    - Tami
    https://www.meuepilogo.com

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  6. Oie Teca =)

    Não conhecia o livro, mas eu gosto de livros com essa pegada mais futurista, apesar de alguns autores exagerarem um pouco tornando o futuro meio assustador rs...

    Fiquei curiosa, mas a ressalva que você vez em relação ao ritmo da narrativa me desanimou um pouco. Nada contra livros em terceira pessoa, na verdade dependendo o livro até prefiro. Mas, quando isso interfere no meu envolvimento com a história e no meu ritmo acho complicado ...

    Beijos;***
    Ane Reis | Blog My Dear Library.

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