quarta-feira, 9 de maio de 2018

Dark - Crítica


A Netflix tem me tirado um pouco da zona de conforto hollywoodiana. Por causa dela, tenho assistido a mais séries, filmes e documentários de países fora do eixo EUA-Inglaterra. A espanhola La Casa de Papel (comentei aqui) é um dos exemplos que quase todo mundo viu, ou pelo menos conhece, mas acho que a alemã Dark também merece atenção.


Primeira produção da Netflix da Alemanha, Dark, de Baran bo Odar e Jantje Friese, foi comparada a Stranger Things logo que foi lançada, em dezembro. Ouvi algumas pessoas dizerem que era como a série dos Duffer Brothers, mas mais sombria. Só que tirando o fato que a série tem como início o desaparecimento de uma criança e que parte dela se passa nos anos 1980, as similaridades terminam.

Conhecemos em Dark a pequena cidade industrial de Winden, no interior da Alemanha, e seus habitantes. O que há de mais notável no lugar é o funcionamento de uma usina nuclear, que está em processo de desligamento. E então um homem se suicida, deixando para sua família uma carta que só pode ser aberta em determinada data, uma criança desaparece misteriosamente e o roteiro começa a nos apresentar respostas, perguntas e muitos desdobramentos que falar aqui seria de um spoiler tremendo.



Dark é complexa, é inteligente, é lúgubre e exige paciência do espectador no início. O roteiro realmente nos fisga lá pelo terceiro ou quarto episódio, quando passamos a entender com o que a cidade está lidando, quais são os segredos, rancores e mentiras que esconde. Antes disso é um desfile imenso de personagens que confundimos o tempo todo e não entendemos a sua relevância para a história, mas não se engane, todos têm um porquê, mesmo que não tão explorados na primeira temporada.

São muitos os núcleos de personagens, mas todos eles se entrelaçam, seja no presente, seja no passado. É preciso ficar atento – e muitas vezes até mesmo voltar alguns minutos – para saber quem é quem e qual é a relação com outro. Isso é proposital. O principal de Dark não são os personagens e nem as relações humanas, ainda que podemos enxergar, especialmente do meio para frente que Jonas (Louis Hofmann) é o protagonista, juntamente com Ulrich (Oliver Masucci, que parece um Daniel Craig bem amarrotado). Todos fazem parte de uma história maior, de uma trama em que as engrenagens devem estar alinhadas ou tudo dará errado, que é o que acontece. Winden é o centro de tudo, de toda complexidade do universo.

Fala se ele não parece o Daniel Craig bem amarrotado?


No início, principalmente no primeiro episódio, parece que temos uma série de terror, ou no mínimo de suspense. A trilha sonora dá uns sustinhos, as cores são sombrias. Winden é triste. Parece um eterno inverno. Pouca ou nenhuma luz do sol, cores muito sóbrias e de paleta fria (tirando o casaco de chuva de Jonas, que é amarelo, e contrasta com tudo ao seu redor), chuva constante, florestas com poucas folhas verdes. Enfim, é melancólico e eu fiquei deprimida só de olhar. E na verdade toda ambientação da série mostra o estado de espírito dos habitantes da cidade, como todos estão por dentro. Gente, não tem UM ÚNICO ser humano naquele lugar que seja feliz, que dê sorrisos. 

Dark não é fácil de assistir. Por não ser linear pode parecer confusa. Vai, volta, volta mais um pouco, vai para frente e assim acontece. Temos cenas em 2019, no anos 1980, nos anos 50... E ainda precisamos pensar em quem é quem em cada um dos momentos, porque os personagens se repetem em diferentes anos com idades variadas. Em momentos a série é lenta, mas isso é um pouco necessário para que o espectador se ambiente com todos os personagens e famílias. 


Desde o começo ficamos intrigados com os mistérios de Winden e seus habitantes, mas chega num ponto, lá pelo quinto ou sexto episódio, que as peças começam a se encaixar e você imerge tanto naquele enredo que é impossível sair. Há muitas perguntas, algumas respostas e muito fica em aberto – muito mesmo, mas não a ponto de o espectador se cansar do suspense, de achar que o roteiro só quer te enrolar a ver mais e vai dar desfechos ruins. Pelo contrário. O final da primeira temporada é inesperado e deixa as expectativas lá no alto para a segunda temporada, que já foi confirmada e está em produção.

Como não estamos acostumados com séries e filmes em alemão, por um tempo é muito esquisito assistir e ouvir a língua (que, para mim, parece que eles brigam o tempo todo por causa da entonação), mas depois de um tempo isso nem é perceptível mais.


Se você já assistiu a série e ficou cheio de perguntas e dúvidas, o Omelete fez aqui um guia para entender melhor Dark.

Recomendo.

Teca Machado

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