terça-feira, 6 de junho de 2017

Yellow


Sou uma grande defensora da literatura nacional (ainda mais porque eu sou uma escritora nacional, né? Por falar nisso, você pode conhecer meus livros aqui – versão física – e aqui – versão ebook). E sempre que surge a oportunidade de indicar alguém ou alguma obra não perco a chance. E hoje é ainda mais especial porque a indicação, no caso, é minha prima Helena Forte-Mussoi. 

Ao contrário de mim, que escrevo textos cheios de corações e amorzinhos e risadas, a escrita da Helena é mais forte, mais visceral, mais crua. E como eu gosto de tudo que é gênero, me delicio nos textos dela. O que eu trouxe hoje se chama Yellow, que faz parte de um concurso de contos. 

Leia, vote e compartilhe (o link para votação é esse):

Yellow – Helena Forte-Mussoi

“No dia seguinte ninguém morreu. - José Saramago, As Intermitências da Morte”

Prólogo

A cidade podre gangrenada até os ossos. Todos os minutos nascem dois e morrem quatro - exceto aqueles minutos em que nascem quatro e morrem dois. A cidade preta e cinza e em ebulição e suada e perecida e amarela sob o calor infernal, e de tanta sujeira chove preto. O preto na chuva e o amarelo no sol escaldante. A cidade feia.

No dia seguinte morreram quinhentos. No outro seiscentos, no quarto já mais não sei, e foi-se o quinto, foi-se o sexto, foram quarenta e dois dias debaixo de insolação desgraçada na cidade X banhados em sangue e vísceras, assim #3008 acompanha de dentro de casa através da fenda cúbica na parede, “janela”, chamam, janela? Pastiche. A janela não é janela, a casa não é casa, que fizeram eles, que fizeram?

I. Antes

Faltam cinco minutos para o Cogumelo.
Todo mundo morreu – exceto aqueles que não morreram. É guerra, A Guerra, A Guerra de Todas as Guerras, a guerra selada com o Cogumelo, “Doce Sonho”, chamam-no, desceu o doce sonho numa fúria silente e explodiu e arremessou todos para fora de seus sonhos salgados, sonhos afora e fogo adentro. A cidade em chamas. E choveu. Choveu preto. Dali em diante todas as tardes chove preto.

Doce Sonho zerou a terra. Eis o Apocalipse. 



II. #3008

Julia, o nome é Julia. Quimporta a estas horas, são mais é uma matilha de cães sarnentos embolorados moribundos. Numerados de 1 a 50887 os bravos sobreviventes do desastre nuclear, muito somos gratos ao Governo pelo acolhimento e pela realocação dos miseráveis nos lares claustrofóbicos com fendas cúbicas nas paredes – mas o nome, o nome é Julia, o dela, não o meu, veja lá se vou saber meu nome, ridículo.

Julia, código #3008, constata de sua grosseira janela o caos urbano, uns andam apressados a fugirem dos ladrões, uns são os ladrões a perseguirem os apressados, uns perderam os braços, uns as pernas, uns as moradias, uns o horário do trem, todos a humanidade. Não sei quem é quem ou o que é o quê ou muito de nada, mas sei de Julia, que se não soubesse não haveria quem narrasse os eventos, alguém tem de narrá-los, que remédio? Eu sei de Julia e eu sei do antes e do depois e do agora - enquanto isso chove preto.

III. Agora

Agora é tarde em toda a duplicidade do conceito 'tarde'. É tarde porque já se foi a manhã e é tarde porque não há mais nada que ninguém possa fazer para recuperar o que outrora chamavam “civilização”. A Guerra foi uma potência estúpida que se converteu em ato estúpido, todos sabíamos disso, que outro fim esperavam se não o fim do mundo? Estúpidos - quimporta a estas horas?

Agora é tarde, e Julia, vulgo #3008, cão-alfa, vislumbra o pós-Apocalipse nas ruas que já não são ruas, e nem nada é nada, e tudo pode ser tudo – eu, eu sei de tudo. Sei o que ela pensa, pensa que só se pode reconstruir por cima do destruído, uma camada limpa sobre a camada puída, e vamos nós à Revolução, qual Revolução?, a idealizada por ela, a que tomará forma daqui a umas longas oito horas, a que será executada dentro de uns efêmeros sessenta e três dias. Eu sei de tudo – enquanto isso chove preto.

IV. Oito horas depois

#3008 e a matilha revoltada saíram às ruas que não são ruas às altas horas da madrugada, cessou a chuva, também não há Sol, não há nada além de um monte de nada, nem cor há, só não há, a praça já não é praça, mas ainda é pública, isso ela é. 

Morte aos porcos!, Julia clama, Mas que diabo porcos?, esse foi #4587, ou outro qualquer, tanto faz, Os porcos que nos governavam, os que iniciaram a Guerra e continuaram a Guerra e nunca dela saíram, e trouxeram o mau presságio, e dele veio o Cogumelo, e reduzimo-nos a ruínas, mas não eles, ah, não eles, e cospem na nossa cara enquanto chove preto e morrem centenas e afundamos em anarquia. Porcos no poder!

Morte aos porcos e a todos nós, matilha de cães sarnentos embolorados moribundos, complacentes com o Caos, palermas. Morram!

Obedecer-lhe-emos, pois é claro, quem é que almeja ser palerma, se o cão-súdito jaz patético, ora, que ao menos morda, morda com força e arranque os pedaços cancerosos do organismo estragado, e tudo é câncer, tudo. Fogo! - e voltou a chover preto e parou. 

V. Oito horas depois das oito horas depois

Somos agora o Exército Amarelo debaixo do Sol Amarelo a nos torrar as entranhas, faz calor e os porcos se escondem por debaixo da terra enquanto os cães pisam sobre seus focinhos e conspiram contra os suínos, os malditos suínos que chamaram o Cogumelo. Morram!

E suamos torrencialmente e construímos as bombas, construir para destruir para reconstruir, “Maus Pesadelos”, chamam-nas, e recrutamos os caninos mais vorazes para carregarem-nas e os menos audaciosos para o repovoamento e os mais revoltados para chamarem os porcos para fora dos túneis subterrâneos, bem como eles chamaram o Cogumelo, malditos sejamos os guerreadores, malditos sejam os suínos e os caninos guerrilheiros em combate aos suínos, malditos sejamos.

VI. O sexagésimo quarto dia

Embarcaram os vorazes nos aeroplanos, “Yellow”, são chamados, a cor da esperança e do Sol assassino é o amarelo instaurado pela insolação e pelos soldados do Exército Amarelo. Berram os revoltados Porcos no poder! Morte aos porcos!, e farejam os suínos os insultos e chiam, Como ousam nos insultar a nós, que provemos comida e casa e água preta, que cultivamos a vida e acolhemos os cães sarnentos e promovemos a liberdade da matilha, como ousam!, e saem fulminantes do curral para corrigirem os maus caminhos dos berradores, e, pouco audaciosos, baixamos as cabeças e tomamos o lugar dos porcos no subsolo, e decolam os aeroplanos e porcos e cachorros travam batalhas furiosas.

***

Fogo!, atiram-se os cães-bomba de pára-quedas dos monomotores Yellow, e chovem os Maus Pesadelos sobre os bichos raivosos, e explode o chão, explode o ar, explodem os suínos e os caninos, explode tudo, explodiu o câncer, expurgo, e Fim. 

VII. Depois

E no dia seguinte ninguém morreu – enquanto isso chove preto.

*** 

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Bom demais ou bom demais?


Teca Machado

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Oi, Lu!
      Que bom que gostou.
      Siiiiim! Ela está escrevendo.
      :D

      Beijooos

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  2. Oi Teca,
    Adorei conhecer o conto da sua prima, ótima indicação!
    Voto dado, boa sorte para ela.
    Bjs
    http://diarioelivros.blogspot.com.br

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