sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Escolhas, destinos, caminhos, acertos


Ela acordou e escolheu qual sapato usaria naquele dia de trabalho. Mal sabia que essa escolha seria crucial para o seu futuro, assim como são todas. Quando se fala em escolhas, as pessoas pensam que as importantes são apenas aquelas como “qual profissão seguir?”, “com quem vou me casar?”, “qual carro vou comprar?”. Mas não. As pequenas decisões do dia a dia, as mais simples, podem ter um papel fundamental no desenrolar da vida.

Ela ficou em dúvida se usaria aquele seu salto lindo, alto, de bico fino, ou se queria ser mais casual com a sapatilha de pedraria que combinava com praticamente todas as peças de roupas do seu armário. O que não sabia era que se usasse o sapato de salto, a caminho do trabalho perderia o equilíbrio ao pisar numa pedra e esbarraria nele, o tão esperado amor da sua vida, que até o momento só tinha aparecido em seus sonhos e devaneios. Pediria desculpas por ser tão desastrada e se encantaria pelos olhos verdes dele. Ele ficaria vidrado no seu sorriso tímido de pedido de perdão e perguntaria o seu nome. A partir daí, seriam inseparáveis. Mas ela escolheu a sapatilha e o caminho percorreu sem maiores emoções.

Quando sentou em sua mesa de trabalho, cheia de miniaturas de desenhos animados, percebeu que precisava de um café urgentemente antes de começar as suas atividades diárias. Ao chegar na copa, serviu um pouco na sua caneca preferida. Ao ver uma caixinha de leite em cima da mesa, pensou em misturar um pouco na sua bebida quente. O que não sabia era que aquele leite estava vencido e que se colocasse um pouco no seu café teria uma intoxicação e passaria alguns dias tomando soro no hospital. Por estar com sono, pensou que precisava apenas de cafeína e deixou o leite esquecido. Seu estômago ficou bem, muito obrigada.

Na hora do almoço, apesar de estar atarefada e de o mais sensato ser comer sentada na sua mesa para não perder tempo, resolveu que almoçaria no shopping. Ao passar pela portaria do prédio de escritórios onde era a sede da empresa, deu bom dia ao porteiro e perguntou como ele estava, como tinha sido a sua semana. Havia sido sincera, gostava dele. O que não sabia era que se não tivesse saído para almoçar, conversado com ele e se importado com os sentimentos do homem, ele levaria a sério a decisão que havia tomado de se matar. Ele estava em depressão, solitário, achando que o mundo era um lugar frio e cruel. Mas aquela moça havia sido simpática e afetuosa, como em todos os dias que a via, e ele percebeu que talvez ainda havia alguma esperança e deixou os seus planos de lado, pelo menos por enquanto.

No expediente da tarde, ela precisou pegar um pacote na portaria do prédio. Trabalhava no terceiro andar e tinha que decidir se iria de escadas ou de elevador. Como tinha optado pelas sapatilhas, resolveu que seria mais rápido, prático e saudável ir de escadas. O que não sabia era que naquele momento, dentro do elevador, estava o seu ator preferido, que havia ido até o edifício conversar com o seu agente, que trabalhava alguns andares acima ao dela. Não viu o ator, mas perdeu algumas calorias, isso é verdade. Não foi de todo perdido.

Ao final do dia, juntou as suas coisas e saiu do trabalho. Ficou em dúvida se passava no supermercado ou se ia direto para casa. Por o dia ter sido puxado, estava louca de vontade de deitar no sofá para ver um filme, mas resolveu ir ao supermercado, afinal a sua geladeira estava vazia há quatro dias e não aguentava mais pedir comida ou comer lasanha congelada. O que não sabia era que essa simples decisão afetaria toda a sua vida dali em diante.

Enquanto passeava com o carrinho de compras pelos corredores do supermercado, seu celular recebeu uma mensagem. Distraída ao olhar para o telefone, fez uma curva para a esquerda, ao invés de para a direita, que era a sua intenção para pegar um pacote de Doritos que ficava para aquele lado. Sem olhar para a frente, trombou no carrinho de outra pessoa. Um rapaz. Aquele em quem ela deveria ter esbarrado no início do dia se tivesse saído de salto alto. Às vezes, quando as coisas precisam realmente acontecer, mesmo que a nossa decisão não seja a acertada, o destino faz com que apareça outra oportunidade, mesmo que a gente nem perceba. Ainda bem.

Ela pediu desculpas, ele também. Sorriram e sentiram que não queriam ir embora sem saber um pouco mais um do outro. Foi a vez dele tomar uma decisão. Virava as costas e ia embora, pensando apenas que ela era uma garota muito bonita, ou perdia a timidez, perguntava o seu nome e via se tinham algo em comum, além de frequentar o mesmo supermercado. Resolveu que perguntaria o nome. E isso fez toda a diferença.

A partir daí, todas as decisões, mesmo as mais simples, foram tomadas pelos dois, não apenas só por ele ou só por ela.

Teca Machado


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