quinta-feira, 1 de novembro de 2012

424 passos transformados em 424 memórias – A Queda


Muitas pessoas não gostam do Diogo Mainardi, escritor que foi colunista da Revista Veja durante muito tempo. Um pouco ácido, cricri e reclamão, muitas das coisas que ele diz incomodam. Eu, particularmente, gosto dele principalmente por isso: Por ele ser um chato que dá opinião sobre tudo e todos. Os cuiabanos principalmente tem uma rixa com ele, por causa de uma coluna de maio de 2005 (e por causa da sua retratação mais ou menos de uma semana depois). Apesar de ser cuiabana, não tenho nada contra.

Da sua autoria, já li A Tapas e Pontapés, que foi uma coletânea dos seus textos para a Revista Veja, e ontem terminei a sua mais nova obra: A Queda – As memórias de um pai em 424 passos. E, olha, foi um dos livros mais diferentes que já li.


A Queda mostra o amor incondicional do autor pelo seu filho Tito. Nascido em Veneza, Itália, por erro médico o garoto tem paralisia cerebral. Por a doença afetar a sua mobilidade, o menino sofre muitas quedas ao andar. 424 é o número de passos que Tito já conseguiu dar ser cair, sem tropeçar.

A estrutura de A Queda chama a atenção. Diogo Mainardi usou a quantidade de passos do filho para escrever pequenos textos, frases e anedotas, além de acrescentar imagens e fotos do seu acervo particular. Conta a sua história pessoal ao mesmo tempo em que discorre sobre assuntos correlacionados, como sobre Pietro Lombardo, arquiteto que projetou o hospital onde nasceu Tito, sobre Veneza, sobre autores ao redor do mundo e até mesmo sobre a banda irlandesa U2 e o jogo de videogame Assassin Creed. Como ele repete diversas vezes durante as páginas do livro, “A história de Tito é assim: Circular”.

Diogo Mainardi e Tito, hoje aos 12 anos.

As associações histórico-culturais que o autor faz, as “coincidências” que ele descobre sobre a sua vida e de Tito em relação a grandes personalidades mundiais, são impressionantes. Eu nem consigo imaginar a quantidade de pesquisas que ele fez para escrever apenas um parágrafo.

O interessante é que apesar do tema ser extremamente propício para o sentimentalismo, Diogo Mainardi expressa o tempo todo que ele quer fugir desse aspecto. Às vezes, é até mesmo um pouco impessoal, parece que está contando a história de outra pessoa.  Em alguns momentos, ele é cruel consigo mesmo, refletindo sobre suas atitudes em relação ao parto. 

Não é para termos dó ou compaixão dele ou de Tito, é apenas um livro de memórias onde o leitor aprende muito sobre paralisia cerebral, cultura, arquitetura e até mesmo sobre ações (péssimas) do governo de Hitler. 

Tito, Diogo Mainardi e Nico, seu caçula.

É “engraçado” ver como Diogo Mainardi “mordeu a língua”. Apesar do Hospital de Veneza, Scuola Grande di San Marco, ser conhecido pelos seus erros médicos, ele insistiu que o parto fosse feito no local, mesmo com os temores da esposa Anna. Segundo ele, queria que o filho nascesse ali por causa da proximidade com uma padaria que ele gostava e por causa da arquitetura estilo Renascentista. Ele afirmou “Com esta fachada, aceito até um filho deforme”, que foi o que aconteceu.

Apesar de ser de leitura rápida (São 152 páginas pequenas, com letras grandes, espaçamento e imagens), A Queda não é um livro que você vai esquecer rapidamente.

Recomendo.

Teca Machado

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