sábado, 29 de dezembro de 2012

À Frente do Caos – Minha reportagem xodó


Como muitos de vocês sabem, eu sou jornalista. Apesar de ser formada há só dois anos e meio (Nossa, tudo isso já?), trabalhei em redação por mais de quatro. Primeiro em um jornal (Uma das coisas que eu mais detestei fazer no mundo, mas onde eu aprendi muito) e depois numa revista (O que eu amei de paixão e onde aprendi mais ainda). A partir de 2013 vou largar a redação e ficar só na assessoria de comunicação e no blog.

Ao longo de um monte de matérias sobre os mais variados assuntos do universo, de depilação masculina a entrevista com o Governador, tenho algumas reportagens que são xodós, como filhas mesmo. Que quando terminei, olhei o trabalho e disse: Oi, neném da mamãe! Uma dessas, escrevi no início de 2012 para a Revista RDM, onde trabalhava, sobre um grupo de Cuiabá chamado Quake Red Alert, que prevê abalos sísmicos ao redor do mundo.

Como estou dando um tchau para essa fase da minha vida de redação, resolvi colocar aqui para vocês esse texto. Achei o tema interessante e o trabalho deles algo sensacional que vale a pena ser compartilhado. É grandinho, mas você não vai se arrepender de ler até o fim.

Impossível é um termo que não está no vocabulário de Aroldo Maciel. Pesquisador, grande observador do mundo e dos seus acontecimentos, sempre teve facilidade de enxergar padrões nos fatos e de fazer experiências em todo tipo de campo da ciência. Durante mais de um ano acompanhou a atividade sismológica no planeta, lendo livros, matérias e artigos, até que percebeu um padrão. Na semana que aconteceu o terremoto no Japão, uma das maiores tragédias do ano de 2011, ele já tinha percebido que iria acontecer. E começou a testar a sua teoria. “O que todos os geofísicos e geólogos do mundo dizem ser impossível de fazer, eu descobri como. Agora tem gente que me acha picareta, principalmente porque eu não tenho formação acadêmica no assunto”, comenta. “Sou tachado de louco e até de genial, mas não me importo”. O fato de ser brasileiro, povo considerado pelo resto do mundo como “malandro” e ainda por cima cuiabano, fora do eixo Rio-São Paulo, faz com que muitas pessoas acreditem que o que ele faz é mentir.

Os meninos do Quake Red Alert

Com uma média de acertos de 90% em suas fórmulas matemáticas de previsão, ele explica que o que faz não é estatística. “Se fosse, acertaria muito menos. Seria muito mais possibilidade do que certeza, o que não é o meu caso”. Além dos terremotos do Japão e da Espanha (11/03), ele acertou os da Costa Rica (13/03), do Chile (02/04), da Turquia (23/10), que foram os mais devastadores de 2011.

A fórmula matemática consiste num algoritmo de triangulação de dados que prevê em até sete dias um sismo que está a caminho. O pesquisador defende que, assim como as correntes marítimas, os terremotos possuem rotas, direções e força. Desse modo, ele possui uma propriedade na qual é possível calcular magnitude, velocidade e localização.

De acordo com Aroldo Maciel, o índice de erro é de 1,2 a cada 10, e, quando não está correto, geralmente erra apenas o local atingido em alguns quilômetros. O seu material de trabalho são apenas mapas e papéis com cálculos. “Nada sofisticado ou tecnologia de ponta”, completa.


Equipe virtual > Para poder divulgar suas informações e provar a veracidade da sua descoberta, Aroldo Maciel chamou três amigos para fazer parte de um grupo chamado Quake Red Alert. André Galvan, Gregório Frigeri e Igor Machado, todos com formação em comunicação social, aprenderam sobre sismologia e criaram um site e uma conta no Twitter para disponibilizar suas previsões, que já passam de mil.

A fórmula matemática consiste num algoritmo de triangulação de dados que prevê em até sete dias um sismo que está a caminho, como o da Turquia. Aroldo é o líder e garante que o objetivo do Quake Red Alert não é causar o caos e o pânico, apenas alertar pessoas que podem ser atingidas. “Por isso, não disponibilizamos a magnitude do terremoto, apenas a sua localização. Quando eles são considerados pequenos e sem risco de danos, nem divulgamos. Então, se ele está no site e no Twitter, é porque é um dos perigosos”, salienta.

Como no mundo virtual é possível fraudar datas e fatos postados, a equipe coloca na sua conta do Twitter a chegada de um sismo com antecedência para que todos os seus seguidores e outras pessoas possam ver e, assim que ele ocorrer, comprovar a sua credibilidade. Há quase um ano no ar, desde abril de 2011, eles possuem atualmente mais de 40 mil seguidores e escrevem em inglês, português e espanhol.

Inicialmente, postavam a previsão do terremoto e, depois que ele acontecia, colocavam um link com sites de sismos oficiais e matérias relatando sobre o ocorrido para provar a veracidade das suas informações. Segundo Igor Machado, hoje isso não é mais preciso, já que os próprios internautas dos lugares atingidos twittam avisando que a previsão estava correta. É muito comum ver tweets de seguidores agradecendo o aviso do terremoto que vinha, pois foram salvos por causa disso.

Professor George Sand França, um grande apoiador.

Um dos problemas que o Quake Red Alert enfrenta, além do preconceito com a descoberta até então considerada impossível, é que a equipe é pequena. No momento, são apenas os quatro jovens, que trabalham em outras áreas e fazem da equipe algo como um hobby, não como emprego. Desse modo, não há como fazer previsões para o mundo todo, por isso eles acabam escolhendo apenas as áreas comumente mais afetadas por terremotos. Para acabar com esse obstáculo, André Galvan pretende criar um software que ajude nas pesquisas, assim, os cálculos não serão mais feitos apenas à mão e papel.

George Sand França, doutor em Geofísica pela Universidade de São Paulo (USP), é um dos que acreditam no trabalho do Quake Red Alert. Áreas de risco  > Alguns lugares do mundo são muito mais propensos a sismos do que outros. O Chile e a Turquia são alguns dos que mais sofrem com isso. Por isso, grande parte das previsões feitas pelo Quake Red Alert é sobre esses dois países. Com isso, a “população chilena já comprovou que nossos dados estão corretos e acreditam muito no nosso trabalho”, afirma André Galvan. 

Segundo ele, as redes de televisão do país apresentam os dados juntamente com previsão do tempo, os dois considerados como utilidade pública. Gregório Frigeri ainda conta que Rodrigo Candia, presidente da equipe de resgates ITF-CHILE, e Andrea Ojeda Miranda, assessora da Presidência da República do Chile, já mandaram cartas de agradecimento ao Quake Red Alert pelas previsões.

Gráfico de sismos.

Na conta do Twitter da equipe, há agradecimentos recentes pela divulgação com antecedência do sismo que abalou o Peru no dia 30 de janeiro de 2012. O internauta @habo25 escreveu “Aumenta para 98 o número de feridos por forte sismo no Peru. Sismo foi divulgado pelo Quake Red Alert”. Já @solanowilfred postou “Quake Red Alert, alguns esperam que vocês estejam equivocados para que não passemos por essas tragédias, mas, obrigado por nos avisar e assim estarmos preparados”.

Preconceito > Apesar de comprovar a eficácia da sua ferramenta, Aroldo Maciel pontua que o preconceito em relação ao trabalho é muito grande. “Os cientistas não acreditam na previsão de sismos principalmente pelo fato de que nunca tentaram algo igual ao que fazemos. Estão muito presos à ciência atual e não querem evoluir”.

Para que isso acabe, os membros do Quake Red Alert comentam que é preciso ter respaldo científico, além do que eles já têm feito. O complicado é que nem todos os geólogos e outros estudiosos da área estão abertos ao assunto. Felizmente, nem todos pensam assim. George Sand França, doutor em Geofísica pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do departamento de sismos da Universidade de Brasília (UnB), um dos geólogos mais conceituados do país, é um dos que acreditam. “Posso ser também tachado de louco, mas eu asseguro o que eles tentam provar”, afirma o estudioso.

Aroldo Maciel procurou o pesquisador por meio de seu blog. “Apesar de parecer uma proposta estranha e fora do que se tem comprovado hoje, fiquei curioso e decidi ouvi-lo”, explica o professor. Para ele, o Quake Red Alert apresenta bons resultados, principalmente por meio do site e da conta no Twitter, e está baseado cientificamente. “É muito importante tomar cuidado para não gerar o caos com as informações descobertas e eles estão fazendo isso”, salienta. O próximo passo é quantificar e divulgar por meio de estudos formais e artigos, que já estão sendo elaborados por ele e sua equipe, da qual Aroldo Maciel faz parte.


O professor George Sand França acredita que, por a ciência crer que não há como prever terremotos, não se “pensa fora da caixa”. “Um sismólogo como eu nunca teria chegado a essa conclusão, pois sempre aprendemos que isso é algo impossível”. Para ele, o mais interessante é que a iniciativa saiu de alguém de Mato Grosso, uma região que quase não apresenta sismos.

Apoio de blogs  > Mesmo que muitas pessoas não acreditem que seja possível prever terremotos, Aroldo Maciel conta com o apoio de muita gente, principalmente do mundo virtual.

Blogs conhecidos nacionalmente, como Jacaré Banguela e Papo de Homem, que tratam de diversos assuntos, fizeram matérias sobre o Quake Red Alert. Sites, principalmente internacionais, além de rádios da América Latina, fazem reportagens com a equipe.

Placas tectônicas.

Mesmo assim, ainda há falta de respeito com o trabalho da Quake Red Alert, mas não é algo que incomoda os jovens pesquisadores. Segundo ele, enfrentar resistência não é nada se comparado à sensação de salvar vidas mundo afora. “Por mais que eu quisesse estar errado, para que aquelas pessoas não passassem por esse desastre natural, saber que eu ajudei é algo fantástico e muito gratificante”, finaliza Aroldo que, juntamente com André, Igor e Gregório, são funcionários da Universidade de Cuiabá (Unic).

Afinal, o que são sismos? > Um sismo é basicamente a ocorrência de uma fratura da crosta terrestre a certa profundidade, que origina ondas elásticas que se propagam por toda a Terra. As palavras sismo e terremoto são sinônimas, e normalmente reserva-se o uso da palavra terremoto para a classificação de grandes sismos, e para os pequenos costuma-se usar abalo sísmico ou tremor de terra.

Ha muito tempo o periodo jurássico ficou para trás. Mas os terremotos que remontam a ele continuam a nos ameaçar?

O link para o site onde a reportagem foi publicada originalmente é esse (Não achem que eu roubei o texto. O meu nome é Marcela Machado mesmo, mas eu só uso para o meu eu-profissional-gente-grande).

Teca Machado (Ou Marcela, dá na mesma)

Um comentário:

  1. Teca ou Marcela, adorei essa matéria. Uma pena você ter saído dessa área.
    Sucesso em sua nova etapa!

    Um antigo amigo passou por aqui...

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