quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Um adeus...


Eu não cheguei a conhecer o meu avô paterno. Ele faleceu quase um ano antes de eu nascer. Sempre tive contato com a minha avó paterna, que logo após ficar viúva saiu de Minas Gerais para morar perto dos filhos, que estavam em Mato Grosso. Já os meus avós maternos continuaram em Governador Valadares (A cidade onde todo mundo tem algum parente que mora nos EUA) e eu os visitava uma ou duas vezes por ano, então mesmo longe, estive próxima a eles. Sempre fui chegada ao meu avô Volney

Gostava muito do fato de que o vovô Volney deixava eu fazer o que quisesse com ele, principalmente penteados nos seus ralos cabelos brancos. No final da tarde, após varrer as folhas da árvore da manga e da árvore de tamarindo, ele se sentava numa cadeira de madeira virada para a rua. Uma mini Teca de uns cinco anos (E até mais, fiz isso até lá pelos meus 15 anos) ficava de pé atrás e começava a dividir o cabelo dele no meio, a fazer moicano e outras coisas. E ele nem reclamava, ficava ali lendo um jornal, como se eu realmente fosse uma cabelereira. 

Algo que nós dois fazíamos juntos era conversar em “inglês”. Na verdade, disso eu não me lembro, mas meus pais e meus tios contam que nós dois passávamos horas (Literalmente) falando em “inglês” um com o outro quando eu tinha uns três anos. Basicamente, o papo era “Blablublemimu? Shulaputoble”. Ou seja, algo totalmente ininteligível, mas nós nos entendíamos.

Meus avós moravam em um bairro chamado Ilha dos Araújos que é realmente uma ilha no meio da cidade (Tanto que várias vezes quando o Rio Doce enchia, nós saíamos correndo de lá porque inundava tudo). Eu, o meu avô e a minha irmã costumávamos passear no calçadão na beira do rio nos fins de tarde e ficar batendo papo sobre tudo, sobre nada e catando frutinhas das árvores, principalmente amoras. Ele me ensinou a sentar debaixo do pé de acerola na casa dele e ficar ali comendo por horas.

Não achei no meu computador fotos do meu avô...

Só que há uns dez anos, meu avô foi diagnosticado com Mal de Alzheimer. Foi muito triste para todos nós saber que aos poucos ele ia perder a sua memória. Gradualmente, o vimos se esquecer de acontecimentos, de pessoas e até mesmo de nós. Doía o coração encontrar com ele e perceber as mudanças que estavam acontecendo e vê-lo cada dia mais frágil

Era um sofrimento para todos nós e, acredito que para ele também (Só que ninguém sabe ao certo, pois essa doença como um todo ainda é um mistério para a humanidade). Mas na terça-feira, 8, Deus o levou da forma mais tranquila possível, totalmente em paz e indolor. Meu avô Volney, aos 83 anos, descansou ao lado do Pai.

Fico feliz de sabe que eu fui abençoada por ter convivido bastante com ele, mesmo morando longe. Fico com pena das minhas primas Ana Clara, de seis anos, e Beatriz, dois anos, que o conheceram apenas após a doença. Mas eu, o Marquinho, a Tânia, a Nana, a Esther e a Sarah aproveitamos muito o vovô Volney e só teremos boas lembranças dele, que era pequenininho, meio careca, com um bigodão.

Não digo que sentirei saudades dele porque já sinto há muito tempo.

Deus, obrigada pela vida do vovô Volney. Agora console os nossos corações, amém.

Teca Machado

2 comentários:

  1. Que belíssimo depoimento Teca, só quem perde sabe realmente como é... Que Deus continue iluminando tantas lembranças boas, pois afinal são elas que importam... E que conforte seu coração e os corações de sua família.

    Meus Sentimentos

    Cristiano

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  2. Tequinha,

    Este foi um dos depoimentos mais bonitos que eu já li. Concordo com tudo, porque eu participei junto.

    Que Deus console a todos nós.

    Ah, e eu acho que tenho o vídeo de " vocês conversando em inglês".

    Beijos,

    Dad

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